quinta-feira, 24 de maio de 2012
Já que não tenho coragem de assumir a minha loucura, queria que ao menos
algum canto do mundo me acolhesse. E me abraçasse e dissesse que tudo
bem, tudo bem de vez em quando eu perder assim a razão ou o equilíbrio.
Eu queria que existisse um canto do mundo que nunca me dissesse “ei,
você se expõe demais” e que me deixasse ser assim e apenas me deixasse
ficar quietinha e quente quando o mundo
resolvesse me magoar porque sou briguenta, mas sou mais sensível que
maria-mole em frigideira. Eu queria ir para um planeta onde não
existisse tempo de beijar e tempo de pirar. E eu pudesse ir agora ao seu
mundo e te beijar até enjoar de você. E eu pudesse, de repente, gritar
bem alto porque me irritam esses milhares de sons tecnológicos que você
faz. Para mostrar que meio mundo te procura enquanto eu não posso te
procurar porque a cartilha da vovó que casou dizia que a mulher nunca
pode procurar o homem se não quiser ser usada por ele. Eu queria mandar
pra puta-que-pariu a cartilha da vovó. E queria tirar essa voz do meu
pai da minha cabeça, dizendo “minha filha, homem não gosta dessas
coisas". Eu sei que sou exatamente o que 98% dos homens não gostam ou
não sabem gostar. Eu falo o que penso, abro as portas da minha casa, da
minha vida, da minha alma. Basta eu ver o sinal de luz recíproca no
final do túnel que eu mando minhas zilhões de luzes e cego todo mundo.
Sou demais, tanto que ninguém aguenta. Ninguém entende nada. E eles
adoram uma sonsa. Adoram. Mas dane-se. Um dia, um louco, direto do
planeta dos 2% de homens, aparece. E que se dane a natureza gritando no
meu ouvido que não posso ser assim. Que boa fêmea sabe esperar nove
meses, portanto deve saber esperar uma ligação ou um sinal de "pode
avançar no joguinho". Eu não sei esperar nada. E a natureza gritando no
meu ouvido então, já que sou birrenta, vou ficar sem nada mesmo. Porque é
preciso saber viver. Atiram a gente nesse mundo, nosso coração sente um
monte de coisa desordenada, nosso cérebro pensa um monte de absurdo. E a
gente ainda precisa ser superequilibrada para ganhar alguma coisa da
vida. Como se só por estar aqui, aturando tanta maluquice, a gente já
não devesse ganhar aí um desconto para também ser louco de vez em
quando. Quem é essa natureza maluca, quem é esse mundo maluco? Quem são
esses doidos que exigem tanta certeza e tanta “finesse” e tanta postura
da gente? E eu queria te beijar até enjoar. Porque eu só sei curar uma
vontade de me entorpecer de alguém quando sugo a pessoa até a última
gota. O problema é que nesse mundo sem graça com celulares que apitam,
mensagens no MSN que apitam e policiais mentais que apitam "ei, segura a
onda, não deixe ele perceber que pode comandar até a última seu
coração", ninguém mais sabe nem sugar e nem ser sugado até a última
gota. Fica uma droga de um joguinho superficial de trocas superficiais. E
ai de quem resolva sair disso. Vai ser tachado de louco de pedra.
Maluco. E as meninas sonsas se dando bem, e eu dormindo abraçada com o
travesseiro. Já que não tenho coragem de assumir a minha loucura queria
que ao menos algum canto do mundo me acolhesse. E me abraçasse e
dissesse que tudo bem, tudo bem de vez em quando eu perder assim a razão
ou o equilíbrio. E repetir, repetir e repetir o erro. E jurar que da
próxima vez eu serei normal. E jurar que da próxima vez eu obedecerei á
natureza, ao meu pai, à cartilha da vovó ou às meninas sonsas. E virar a
rainha dos 98% dos homens que não sabem o que fazer com uma pessoa que
nem eu. E depois chutar todos eles porque no fundo to pouco me fudendo
pra essa maioria de idiotas. Pode até ser meio solitário nadar contra a
maré, mas como é gostoso olhar a multidão do outro lado e enxergar todo
mundo pequeninho.
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