Das ressacas, tive a pior, a ressaca moral. Sem remedinho, repouso ou
simpatia pra passar. O telefone de um lado, o orgulho do outro. Um filme
da noite passada, sem final feliz. Eu sem você. O mundo me apontando o
dedo, como se já não bastasse o meu. Acabou o café, acabou o sono,
acabaram as desculpas pra não sair e encarar o mundo. Só que, por sorte,
acabou também minha paciência de ouvir
lição de moral de quem não tem moral faz tempo. Fiz porque eu quis e
faço de novo, quando me der vontade. Foi assim que eu saí pela primeira
vez depois do ocorrido, dando a cara a tapa, com meu melhor batom, uma
roupa escolhida a dedo e um foda-se na ponta da língua. Não economizei
grosseria, tô cansada de poupar pessoas que não se esforçam o mínimo pra
me poupar de nada. Anota aí grossa na sua lista de julgamentos, joga na
minha cara outro dia, numa próxima oportunidade. Quem não erra? Faça-me
o favor, pra que tanta rispidez por eu ser humana? Podia comprar uns
pães e usar o saco na minha cabeça, pra me esconder de toda essa
falação, mas eu não ia conseguir me esconder de mim, então deixei pra
lá. Só continuei ereta e me vesti de deboche. Porque não vale a pena,
ninguém tava falando pra me ver feliz, era só pelo prazer de julgar, só
queriam o gostinho de me ver na pior e isso eu não podia dar. Voltei pra
casa e o telefone continuava me encarando, mas nada de tocar. Tá
querendo que eu ligue? Pode desistir. Se ninguém mais se arrependeu
nessa história, não seria eu quem iria inaugurar. Não sou de deixar pra
lá, porque esse “lá” é sempre algum lugar dentro de mim e as coisas me
assombram por anos. E sou impulsiva demais pra fazer o papel de vítima,
nunca encarno o personagem e acabo me desculpando por coisas que eu nem
fiz, só pelo hábito de ser vilã. Peguei o celular, depois de muita luta,
deixei mensagem: “Não sou de cobrar, acho que as coisas tem que
acontecer num fluxo natural. O que te cobrei, porque me doía a ponto
d’eu atropelar minhas regras, te deixei faltar. Deixei, talvez, porque
você me faltou demais e pra preencher teus espaços precisei de mais que
textos, músicas e saudade. Se alguém chegou, foi porque você deu espaço.
Eu não soube distribuir as vírgulas, porque sou assim, saio atropelando
tudo, sem pausa, errei. Ainda tenho moral porque não fiz nada por
aventura, fiz por desamor. E quando se trata disso, pra todo erro há uma
absolvição. Não sei você, mas eu me perdoei. E me basta, porque de
alguma forma absurda e irônica, fui a maior lesada dessa história toda.
Mas me perdoei.” E deitei de consciência tranquila. A mensagem tinha
sido meu remédio. Não contei pra ninguém essa história, muitos opinam e
repassam boatos por aí, mas poucos sabem com detalhes o que realmente
aconteceu. Sou muitas e todas elas são exigentes e críticas, então já
enlouqueço sem ajuda, não preciso de outros donos da verdade. Não contei
porque não interessa. Só vacilei, fiquei mal, encarei minhas
consequências, deixei meu desabafo com quem merecia talvez uma breve
explicação e dei sequência na vida. Toda ressaca passa, depois a gente
procura por outra e por outra. Que também vão passar. Vomitei meu último
foda-se e fui dormir, em paz.
Marcella Fernanda
Marcella Fernanda

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